O envelhecimento populacional é uma realidade no Brasil, e na cidade de Campinas, dados divulgados pelo IBGE entre os anos de 2000 e 2022 apontam que a quantidade de pessoas idosas na cidade teve seu número mais que duplicado nas últimas duas décadas. No ano de 2000, a cidade contava com cerca de 83 mil habitantes com mais de 60 anos, parcela que, na época, significava 8,3% do número total de moradores (segundo o Censo Demográfico do Instituto, 1.080.113 habitantes). Já no último Censo, feito no ano de 2022, a porcentagem de pessoas idosas na cidade passou a ser de 18,4%, que equivalia a 209.267 pessoas, de um total de 1.139.047 no município.
O envelhecimento traz consigo um aumento proporcional de doenças crônicas. Segundo o Elsi-Brasil, 70% da população idosa no Brasil em 2018 (segundo o IBGE, a porcentagem representava 28,5 milhões de pessoas) convive com ao menos uma condição crônica, como a hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca, doenças osteoarticulares. Não por acaso, a depressão aparece como comorbidade em cerca de 40% dos idosos com doenças crônicas.
É possível que as doenças crônicas e a depressão desencadeiem uma à outra mutuamente. Segundo a psicóloga Luana Duzzi. “As doenças, em geral, aumentam o risco de depressão, considerando suas sintomatologias: dores, incapacitação/dependência, perda de autonomia, preocupação com a saúde e medo do futuro. Essas variáveis envolvidas nas doenças e, principalmente em doenças crônicas ou degenerativas, causam incertezas e ansiedades que podem potencializar o risco de depressão. Assim, também, a depressão pode intensificar ou agravar doenças, uma vez que o sujeito pode, por conta desse acometimento, perder apetite e se alimentar mal, dormir mal, ter menos adesão a tratamentos ou mesmo abandoná-los. Daí a importância do acompanhamento com equipe multi, de modo a tratar o paciente de maneira integral.”, afirmou a especialista.
Esta etapa da vida é marcada por diversas mudanças significativas na vida de alguém, seja no aspecto físico, cognitivo ou emocional. As mudanças que acompanham a terceira idade impactam em diversos aspectos emocionais da pessoa idosa, seja no comportamento, na autoestima, ou mesmo na saúde mental, desencadeando a chamada “depressão geriátrica”.
Em um comparativo feito pelo IBGE da quantidade de pessoas 60+ entre os anos de 2013 e 2019 com diagnóstico de depressão apresentado por profissionais, apontou que houve um crescimento de cerca de 19% durante o período. Neste intervalo de seis anos, a prevalência de depressão autorreferida entre idosos cresceu 2,1 pontos percentuais, passando de 11,1% para 13,2%, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde. Profissionais da área afirmam que sintomas depressivos podem ser manifestados em idosos por diversas causas e razões, sendo um dos maiores obstáculos ao tratamento a própria invisibilidade da doença.
A depressão em idosos se apresenta de forma atípica e é justamente essa diferença que pode atrasar em anos o diagnóstico correto. Segundo Luana Duzzi, a visão da sociedade para o envelhecimento camufla sinais da doença em sentimentos trazidos pela idade. “Comumente acontece da velhice ser estereotipada, acreditando-se que, com a idade, as pessoas necessariamente vão ficando mais retraídas, reclusas, desmotivadas e isoladas. É preciso, no entanto, atentar-se para o fato do sujeito estar apresentando tristeza, desânimo, desmotivação excessiva, perda de prazer em atividades das quais antes costumava gostar. Isso não deve ser considerado normal e, por isso, faz-se necessário buscar uma escuta especializada e cuidadosa, de modo a identificar sentimentos e emoções relacionadas a perdas e desesperança.”, concluiu a psicóloga.
Outro fator de influência para o diagnóstico antecipado da doença é a quantidade de médicos e outros profissionais especializados em saúde na terceira idade. A área da geriatria, por exemplo, passa por um déficit na quantidade de profissionais. Segundo dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, no ano de 2023 o Brasil tinha um total de 2.670 geriatras registrados no Conselho Federal de Medicina (CFM). Desses, apenas 1.406 atendiam pelo SUS, sendo uma proporção de 1 geriatra para cada 22.600 idosos, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda 1 para cada 1.000. O déficit estimado de geriatras no país era de 28 mil profissionais.
Já em 2025, os dados passaram por uma nova análise, a qual mostrou avanços no número de médicos geriatras registrados, apresentando 3.167 geriatras no país, sendo que, no mesmo ano, o Brasil atingiu uma quantidade de 35,3 milhões de pessoas acima de 60 anos. Sendo assim, a dimensão é de um médico geriatra a cada 11.147 pessoas idosas, aproximadamente. Apesar do avanço, os números ainda mostram uma quantidade de profissionais menor que o esperado pela OMS.
Neste contexto, é necessário que os familiares e profissionais que convivem com as pessoas idosas diariamente estejam cada vez mais atentos às suas inquietações, visto que, simples queixas físicas que normalmente são relacionadas à doenças crônicas — como dores, cansaço e falta de sono — podem estar, na verdade, escondendo a depressão. Luana Duzzi diz que toda queixa e comportamento disfuncional devem ser investigados “As queixas físicas podem sim ser sinais de questões emocionais e não devem ser invalidadas. É importante avaliar as possíveis causas daquelas queixas, que nem sempre terão explicação clínica e isso pode denotar uma causa emocional, que deve ser cuidada por profissionais de saúde mental e equipe multidisciplinar”, completou.
Os motivos que levam uma pessoa idosa a ser diagnosticada com depressão são diversos. No artigo “FATORES ASSOCIADOS À ANSIEDADE E DEPRESSÃO EM IDOSOS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA”, publicado pela Revista Nursing em 2022, um dos principais fatores é a perda de autonomia. A necessidade de auxílio para a realização de atividades que anteriormente eram feitas de forma descomplicada e constante, agora se tornam questão de dependência, e o constrangimento pode levar à um declínio na autoestima e sensação de fraqueza ou incapacidade, tendo um peso psiquiátrico específico.
Considerando as formas como isso pode se manifestar clinicamente, Luana diz “A perda de autonomia pode ser fator importante para a depressão, uma vez que, quando o sujeito se dá conta disso, pode vivenciar um luto. Isso porque ele constata que já não pode ou não consegue dar conta do que antes era algo simples e corriqueiro. Dessa forma, a pessoa pode, muitas vezes, apresentar irritabilidade, contrariedade e desesperança. É comum que o idoso questione-se sobre suas capacidades, perda de identidade e dignidade, tendo sua autoestima prejudicada, com sentimentos de menos valia, o que potencializa o risco de depressão.”, concluiu.
Além da perda da autonomia, o sentimento de solidão (seja na perda do parceiro, amigos, filhos e por diversos outros motivos) pode se transformar em luto, também considerado como fator de impacto significativo para o acometimento da pessoa idosa à depressão. A pesquisa apresentada pelo artigo da Revista Nursing discorre sobre este vínculo, afirmando que estão altamente relacionadas.
“A análise dos resultados sobre as evidências científicas sobre a relação entre a solidão e os sintomas depressivos em idosos mostra uma relação positiva entre os dois fenômenos, ou seja, quanto mais evidente o sentimento de solidão e menor interação social, maior o relato de sintomas depressivos, bem como maiores níveis de sofrimento psíquico.”
— Revista Nursing, 2022
Neste contexto, Luana Duzzi conclui sua análise sobre a depressão na terceira idade, reforçando esta convergência e a possibilidade de um desencadear o outro. “A solidão pode aumentar o risco de depressão, pois, diante da falta de vínculos, socialização, afetos, o sujeito tem um empobrecimento de estímulos emocionais importantes. No entanto, podemos dizer que a depressão também aumenta a possibilidade do sujeito vivenciar a solidão, uma vez que há retraimento, afastamento/isolamento social e maior dificuldade em manter relacionamentos e vínculos.”
Em uma pesquisa publicada pelo site “Rede Geronto”, focado na área de gerontologia e na divulgação de materiais sobre o envelhecimento, outro fator, considerado tão influente quanto a solidão e o luto para o desenvolvimento de depressão, é a progressão de doenças crônicas.
A médica geriatra e professora da PUC-Campinas, Dra. Rosalia Matera de Angelis Alves, afirmou a existência desta correlação entre as doenças crônicas desenvolvidas na terceira idade com a depressão geriátrica e disse percebê-las nas queixas apresentadas por seus pacientes. “Com o isolamento social da pandemia, isso se intensificou nas pessoas, por exemplo, que não puderam fazer os seus exames de rotina para rastreio de doença oncológica e tiveram depois esses diagnósticos… pessoas que tiveram suas doenças cardiovasculares descompensadas. Mas, sobretudo, a marca invisível é com relação aos transtornos de humor, depressão, ansiedade e aos problemas cognitivos”.