Seu Jair foi mestre de obras por quarenta anos. Aos 64, depois de uma cirurgia no joelho, deixou o canteiro. Aos 66, abriu uma marcenaria nos fundos de casa. "Eu não voltei a trabalhar por dinheiro", diz, embora o dinheiro também faça falta. "Voltei porque eu não sabia ser eu sem ofício."

Dados do IBGE mostram que a participação de pessoas com 60 anos ou mais no mercado de trabalho cresce de forma consistente há uma década. Hoje, são mais de 8 milhões de idosos economicamente ativos no Brasil.

Os motivos são vários: complemento de renda, projeto pessoal, recolocação após desemprego em idade tardia. "É um equívoco achar que todo idoso que trabalha está em situação de necessidade", pondera a socióloga ouvida pela reportagem. "Há quem trabalhe por desejo, por identidade, por vínculo social."

O trabalho na velhice precisa ser escolha, não imposição. Quando vira sobrevivência, é falha da política pública.

— Socióloga do trabalho

Plataformas digitais — aplicativos de transporte, entregas, ensino online — têm absorvido parte dessa mão de obra. Sem vínculo formal, porém, esses trabalhadores ficam sem rede de proteção. Acidente, doença ou queda na demanda atingem em cheio.

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Marcenaria de Seu Jair, montada nos fundos de casa em Campinas, atende encomendas do bairro.

O preconceito etário no mercado formal é outra barreira. Idosos relatam dificuldade para retornar ao emprego com carteira assinada após os 55, mesmo com qualificação. Programas de recolocação específicos para a faixa são raros.

Seu Jair, no fim da tarde, varre a serragem da bancada. Tem três encomendas para a semana. "Enquanto a mão obedecer", diz, "eu não paro."