Na Região Metropolitana de Campinas, o envelhecimento da população começa a pesar sobre a economia local. Segundo o Censo 2022 do IBGE, a RMC conta com 534,5 mil habitantes com 60 anos ou mais, o equivalente a 16,82% de sua população total. No Brasil, essa faixa etária corresponde à definição legal de pessoa idosa estabelecida pelo Estatuto da Pessoa Idosa. Com mais idosos ativos e um mercado de trabalho que os empurra para fora cedo demais, a região acumula um movimento crescente de empreendedorismo sênior, mas por trás dos números, o que move a maioria é a necessidade, não a escolha.
Esse avanço demográfico amplia demandas por saúde, transporte, moradia, formação, serviços e manutenção da autonomia. A questão não se limita ao aumento do número de idosos, mas envolve a forma como o consumo, trabalho e serviços se reorganizam com o prolongamento da vida.
Em Campinas, essa mudança também aparece no empreendedorismo. Segundo Taís Camargo, consultora de negócios do Sebrae-SP, "na cidade de Campinas temos um percentual maior de representantes da chamada Economia Prateada, enquanto no Brasil esse percentual é de 8,56%, no Estado de São Paulo é de 8,60%, na cidade de Campinas alcançamos 9,47%". A consultora aponta que parte desse desempenho pode ser explicada pela presença de instituições acadêmicas com programas voltados à geração mais velha, como o Vitalità, da PUC-Campinas, e o UniversIDADE, da Unicamp, que oferecem desde cursos de extensão até noções de empreendedorismo para adultos e a terceira idade.
Para o economista Jorge Felix, a "economia prateada", ou, como prefere, "economia da longevidade", não deve ser entendida apenas como um mercado consumidor. O termo silver economy surgiu no Japão nos anos 1970, ligado inicialmente ao marketing, mas passou a ganhar outro sentido quando foi apropriado pelas ciências sociais e pela economia. "Ele deixa de ser apenas uma questão de marketing, ou seja, de você estudar o mercado consumidor idoso, o que ela consome, que horas ela compra, suas preferências por marcas e etc.", explica.
Segundo Felix, em países desenvolvidos como Reino Unido, França e Estados Unidos, o conceito passou a ser interpretado como "uma estratégia de política industrial com base na alteração da cesta de consumo das famílias". Essa mudança ocorre porque famílias com mais pessoas idosas e menos crianças passam a demandar outros produtos e serviços. O ponto central, para ele, é saber se o país será capaz de produzir e inovar a partir dessa nova demanda. "Lá fora, nos países mais desenvolvidos, os pesquisadores estão interessados em responder perguntas básicas. Quem produz? Onde é fabricado? É o meu país que está inovando? É o meu país que está fabricando? É o meu país que está recebendo os royalties por esses produtos?", afirma Felix.
A Região Metropolitana de Campinas reúne elementos que poderiam servir de base para uma economia de longevidade mais estruturada, com universidades, serviços de saúde, programas voltados à população idosa, instituições de apoio ao empreendedorismo e uma rede de pequenas empresas. Hoje, porém, esse movimento aparece de forma dispersa, com mudanças no consumo, na demanda por serviços e na permanência de pessoas idosas na vida econômica.
Trabalho sênior
A economia da longevidade se manifesta no trabalho das pessoas com mais de 60 anos. Parte dessa população continua economicamente ativa, muitas vezes em pequenas atividades nos serviços, no comércio ou em ofícios artesanais, seja para prolongar um saber-fazer, ou para complementar a aposentadoria.
A informalidade também aparece como um traço importante. Segundo Taís, grande parte desses empreendedores pertence à classe C e atua como microempreendedor individual, no comércio informal ou em pequenos negócios familiares. "Há um alto nível de não formalizados e isso está diretamente ligado aos fatores que levam à motivação para empreender: aumento da renda", afirma. A consultora explica ainda que muitos não veem razão para se formalizar porque já estão aposentados e, com isso, consideram a contribuição ao INSS irrelevante. Outros fatores motivacionais citados são a vontade de manter-se ativo e a realização de sonhos antigos de ter o próprio negócio.
A não formalização pode parecer vantajosa no curto prazo, por reduzir custos, mas limita o acesso ao crédito, à emissão de nota fiscal e a capacitações que exigem CNPJ. Quando formalizados, esses empreendedores ainda enfrentam outro obstáculo: são frequentemente classificados pelas instituições financeiras como tomadores de alto risco, com exigências de garantias e seguros maiores em razão da análise de idade e do prazo de pagamento. O Sebrae-SP também identifica obstáculos ligados à tecnologia, especialmente no uso de plataformas de venda on-line, o que afeta diretamente a competitividade dos pequenos negócios.
A trajetória de Isabel Cristina Campassi Palermo Venturini, de 65 anos e proprietária da Ophicina do Banho, reflete esse movimento. Ela trabalha com saboaria, produtos de banho, velas e perfumes de ambiente. A atividade nasceu há 26 anos, quando aprendeu a fazer sabonete de glicerina para uso próprio por causa de um problema alérgico. "O trabalho manual sempre foi algo que gostei e sempre trabalhei com artesanato", conta.
Hoje, o negócio vai além da subsistência. Para Isabel, o principal retorno que ela encontra neste trabalho é o apoio financeiro e a valorização. "Além de ser o sustento de minha casa, me traz a satisfação do reconhecimento dos meus clientes". Contudo, ela também encontra desafios. O principal obstáculo, para ela, é a tecnologia. "Minha única dificuldade ainda é a tecnologia", diz. Esse ponto coincide com uma das barreiras mais comuns identificadas pelo Sebrae-SP entre empreendedores seniores: a dificuldade de adaptação às plataformas digitais, especialmente às vendas on-line.
Jorge Felix vê esse empreendedorismo com cautela. Para ele, no Brasil, empreender depois dos 60 anos é "sobretudo, uma necessidade". O economista relaciona o fenômeno ao achatamento da renda da aposentadoria e à dificuldade de permanência no mercado formal. "A pessoa idosa no Brasil, devido, sobretudo, às reformas da Previdência que nós vivenciamos, teve um achatamento da renda da aposentadoria, e, portanto, a renda de mais da metade da população idosa, que só tem isso como renda. E, evidentemente, essa pessoa tem que se manter no mercado de trabalho", afirma.
O mercado de trabalho é extremamente idosista.
— Jorge Felix, economista
Felix também associa esse movimento ao que chama de "idosismo" no mercado de trabalho. "O mercado de trabalho é extremamente idosista", diz. Segundo ele, muitas carreiras passam a enfrentar instabilidade antes mesmo da velhice. "As pesquisas mostram que você vai muito bem até os 45 anos e depois, não porque você ficou desatualizado ou algo do tipo, mas por renda, pelo alto valor do salário", afirma. Na prática, o trabalhador pode ser substituído por alguém mais jovem e mais barato, e isso vale para diferentes faixas salariais, não apenas para os mais qualificados.
Ainda assim, com base em Joseph Schumpeter, Felix critica o uso ampliado da palavra "empreendedor". Para ele, o verdadeiro empreendedor precisa de apoio do Estado, o que não acontece. Confira no trecho da entrevista a seguir a sua visão acerca do uso desse termo:
Entrevista realizada com Lara Gallo
Estratégia ausente
Para Jorge Felix, o limite do debate brasileiro está em tratar a economia prateada como mercado, e não como política econômica. O país fala muito sobre o consumidor idoso, mas pouco sobre produção, inovação e política industrial.
Nos países desenvolvidos, a silver economy passou a ser vista como estratégia de desenvolvimento. A França teve papel importante nesse processo em 2013, quando publicou um relatório de orientação de política pública sobre o tema, fruto de um grupo de trabalho que envolveu os ministérios de Ação Social e de Economia e Indústria. Segundo Felix, esse movimento mostrou que o envelhecimento poderia ser uma "alavanca para a reindustrialização" e desencadeou iniciativas semelhantes em outros países, com grandes incentivos fiscais, investimento em pesquisa e desenvolvimento e articulação entre universidades, hospitais e órgãos de seguridade social.
A questão, portanto, é saber se as novas demandas da longevidade — como tecnologias assistivas, adaptação de moradias, mobilidade, cuidado, saúde, formação e soluções para autonomia — serão produzidas localmente ou importadas.
Felix critica o caso brasileiro de forma direta. "Aqui no Brasil o termo ainda está muito ligado ao marketing", afirma. Para ele, o país continua concentrado em estudos de comportamento do consumidor idoso e em estratégias de venda, sem enfrentar a questão produtiva. "Aqui no Brasil ainda estamos num estágio lá da década de 70 com esse exército de consultores querendo dizer como é que as empresas vendem, que horas o idoso compra, que cor ele prefere, onde você posiciona o produto na prateleira, sem se importar, sem se aprofundar, sem pesquisar quem está produzindo aquilo e o que você está inovando", destaca.
Se o Brasil não produzir os bens ligados à longevidade, o crescimento do mercado consumidor idoso pode reforçar a dependência externa. Felix resume o risco assim: "Se a gente ficar só tratando de marketing, você está dando um estímulo maior para vender um produto totalmente importado". Nesse cenário, o país oferece seu mercado interno a outras economias, enquanto parte relevante do valor agregado permanece no exterior.
Nós não temos nenhuma ação significativa focada na economia da longevidade.
— Jorge Felix, economista
A ausência de políticas públicas articuladas aprofunda essa fragilidade. "Nós não temos nenhuma ação significativa focada na economia da longevidade", diz Felix. A iniciativa mais próxima seria o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, política retomada no atual governo após ter sido desarticulada em gestões anteriores e cuja fragilidade ficou evidente durante a pandemia. Felix defende, porém, que o debate vá além da saúde e inclua cuidado, autonomia, moradia, mobilidade e serviços de proximidade. "Eu defendo um Complexo Econômico Industrial da Saúde e do cuidado, que são coisas diferentes quando a gente fala do envelhecimento populacional e principalmente do fenômeno da longevidade", afirma.
A Política Nacional do Cuidado, promulgada em dezembro de 2024, poderia abrir espaço para esse debate, mas percebe-se que a iniciativa ainda está em fase inicial. Ao mesmo tempo, o economista observa que saúde, cuidado, mercado de trabalho e economia da longevidade seguem tratados de forma separada em ministérios que raramente dialogam entre si, embora pertençam ao mesmo processo demográfico e devessem compor uma estratégia única e articulada.
De 1980 a 2022, a população idosa do Brasil cresceu quase 50%, segundo o IBGE. Com esse ritmo de envelhecimento, o país tem um prazo cada vez menor para decidir se será protagonista ou espectador da economia que essa transformação produz. A RMC, com suas universidades, instituições de saúde e programas de apoio ao empreendedorismo, tem condições de liderar esse debate, mas, por enquanto, o movimento ainda é disperso e também insuficiente.