Essa história não é sobre a dona Sônia, Nicolas ou Hélia, apesar de eles ajudarem a contar. É uma história sobre o mundo, sobre cada indivíduo que, no tempo, tem algo em comum: o passar dele e o próprio envelhecer. Existem poucas coisas na vida que são possíveis de se ter certeza, mas que o tempo passa e que é impossível fugir dele é uma delas.
O tempo não volta atrás. É impossível reconstruir uma história já contada, apesar de usar as palavras. A física tem como um de seus princípios básicos a teoria da ação e reação, patenteada como a Terceira Lei de Newton, que sugere que tudo aquilo que é feito resulta em uma consequência imediata. Nada que é feito no presente existe sem afetar aquilo que virá no futuro. E é justamente o fato de o tempo não retornar que torna histórias de viagem no tempo tão magníficas e atrativas.
A ideia de voltar no tempo e reescrever a própria história é um desejo humano. Olhar para o passado e refletir sobre o “e se tivesse sido de outra forma” é um dos pensamentos que mais rodeiam a mente humana. Mas, quanto mais os anos passam, menores os arrependimentos do que não foi feito e maior o reconhecimento daquilo que foi conquistado.
“Eu não faria nada diferente, não me arrependo de nada”, afirma Sônia Maria Cordeiro Natale, de 73 anos, com convicção. Seus maiores sonhos de infância eram ser professora e mãe, e ambos foram realizados. Dona Sônia relata que existem muitas coisas que ela acredita que poderiam ter sido diferentes, mas que, no final, a levariam para um lugar alternativo ao qual ela se encontra hoje, feliz, então não valeria a pena. Tudo acontece porque tem que ser.
O meteorologista Edward Lorenz, em 1961, criou o conceito conhecido como Efeito Borboleta, que se originou de cálculos meteorológicos para a previsão do tempo, mas carrega implicações sociais sobre ações e consequências. A metáfora sugere que “o bater das asas de uma borboleta pode resultar em um tornado a milhares de quilômetros de distância”. O conceito é, dessa forma, um dos principais elementos da Teoria do Caos, que ilustra como pequenas alterações nas condições iniciais de um sistema podem gerar resultados desproporcionais e imprevisíveis no futuro — ou seja, como decisões, palavras ou acontecimentos que podem parecer insignificantes a princípio são capazes de mudar totalmente o rumo de uma história.
Mas como o tempo não retorna e o que foi feito não é viável de alterações, o que resta para o ser humano são as lembranças. Acessar o passado através da mente é o único recurso plausível para uma viagem no tempo. “Nós temos muitas lembranças”, reflete dona Sônia. “Às vezes eu paro e coisas de que eu não lembro há anos vêm na mente da gente. Acho que todo idoso tem recordações e pensa muito”, conclui.
Nós fizemos história para ficar na memória e nos acompanhar.
— Marisa Monte
Existem diversos mecanismos que atuam no resgate de memórias. Escutar uma melodia familiar pode encaminhar a mente para uma época que não existe mais. Hélia Maria Sanches, de 77 anos, encontra em músicas antigas recordações de sua juventude. “Me lembro de várias músicas. Abre a Porta e a Janela, Beijinho Doce, Lampião de Gás, e várias outras que eu não sei o nome. Eram músicas que eu cantava nos bailes. Na época, minha irmã era a sanfoneira e eu cantava”, relembra, saudosa.
No entanto, não apenas as melodias carregam essas lembranças. Aromas também cumprem esse papel de forma essencial, como explica o perfumista francês Nicolas de Barry. “É verdade que o cheiro é o sentido mais ligado à memória, porque ele é o mais instintivo. Na perfumaria, já reparamos que isso acontece frequentemente. Quando uma pessoa gosta de um perfume não é aleatório, tem muita relação com a memória olfativa dela”, afirma.
As fragrâncias não se limitam a fazer cócegas em nossas narinas, elas também fazem cócegas em nossa alma, transportando-nos para um passado que acreditávamos ter esquecido.
— Nicolas de Barry
Hélia, pensando em sua infância, conta como existe um aroma que não sai de sua memória olfativa até hoje, ainda que não o sinta há décadas. “O cheiro da sopa do meu avô. Todos os dias, ele almoçava sopa de creme de batata. Ele não mastigava, tinha um problema no maxilar que o impedia de comer alimentos sólidos. Eu ia à casa dele sempre no horário do almoço, e ele sempre me dava um pouco de sopa do prato dele”, relata.
Os aromas são como alquimistas de lembranças: eles revelam o ser e o guiam, pelo olfato, em busca de identidade. Nem sempre aquele aroma fica guardado na memória apenas por ser um cheiro agradável e marcante, mas pela história que ele carrega, pelo afeto e pela importância dos momentos nos quais ele circulava o ambiente. Os perfumes, então, se tornam guardiões de memórias. O aroma de uma sopa de batata não fica guardado pela sopa em si, mas pela nostalgia do carinho de dividir aquele prato com o avô.
Nicolas de Barry relembra um romance francês que descreve justamente o fenômeno de unir a memória olfativa com a afetiva. “No início do romance de Marcel Proust, o personagem está tomando um chá perfumado com bergamota, e ele coloca aquele bolo pequeno que se chama madeleine, um bolo com muita manteiga, que é bem cheiroso também. O contato com o calor do chá vai desenvolver um cheiro forte, que é o misto do bolo e do chá, e isso faz com que ele se lembre do passado. Aliás, o título do romance é exatamente isso: Na busca dos tempos perdidos”, narra. De acordo com o perfumista, esse fenômeno é conhecido como Síndrome de Madeleine.
O poder dos aromas não reside apenas em sua fragrância, mas em sua capacidade de evocar memórias emocionais intensas, ultrapassando o sentido do olfato e alcançando a alma, transportando o ser humano a um passado que ele acreditava estar esquecido, mas que apenas estava adormecido, aguardando algo para despertá-lo. O perfume torna-se, assim, um guia em um labirinto de memórias perdidas, libertando emoções profundas que pareciam nunca retornar.
Perfumes traduzem identidade, histórias e memórias. Através deles é possível conhecer o passado de alguém de forma delicada, em sua essência. Os aromas transmitem aquilo que não é racional, acessando um lugar no subconsciente que poucos elementos conseguem alcançar. O perfumista Nicolas de Barry trabalha com esses aromas que contam histórias, criando perfumes personalizados para cada pessoa, de forma que ela possa ter toda a sua vivência guardada em um frasco.
“Nos perfumes pessoais eu me comporto um pouco como psicanalista, de uma certa maneira. Quando a pessoa vai cheirar matérias-primas, ela vai reagir. Eu já tive uma cliente que começou a chorar ao sentir o cheiro de uma matéria-prima, pois ela estava se lembrando do cheiro do jardim da avó dela na infância. Isso traz uma forte emoção que vai dirigir as escolhas de um perfume original”, analisa o perfumista.
De Barry tem 78 anos, e relembra sua própria infância ao pensar nos aromas que o marcaram ao longo da vida. “Quando penso nas minhas primeiras memórias, eu me lembro muito do cheiro da padaria da rua da minha infância em Paris. Era uma padaria extremamente cheirosa, em geral, como todas as padarias que fazem pão e croissant de manhã cedo. Lembro de quando eu estava indo para a escola, passava em frente àquela padaria e sempre era um cheiro extremamente delicioso”, recorda, contando como o cheiro do croissant ainda o faz se sentir jovem, quase uma criança novamente.
O olfato é uma das maiores portas para o passado. Através dessa viagem sensorial é possível perceber que as histórias podem ser contadas para além das palavras e conceitos, pois os sentidos são uma passagem para a compreensão da identidade e da humanidade. Os aromas são pedaços da alma, reflexos de costumes, tradições e emoções.
Comida é amor, e enquanto eu tiver a comida deles, eu terei eles comigo.
— Nonnas
As memórias podem ser resgatadas de diversas maneiras, como através da audição e do olfato. No entanto, é importante que elas se mantenham vivas, que sejam passadas de geração para geração. Através de tradições e costumes, lembranças são recuperadas e novas memórias são criadas, fazendo com que a passagem de cada pessoa na terra deixe uma marca impossível de ser apagada, com uma história que, mesmo indiretamente, sempre será contada.
Hélia Maria relata que as receitas são seu principal suporte para manter as histórias vivas, que cozinhar determinados pratos e doces é um costume que faz questão de preservar. “São as rosquinhas de pinga, matecal, pão doce... minhas avós e minha mãe sempre faziam, especialmente no Natal”, conta. Ela destaca, ainda, que seus filhos e netos adoram essas receitas, e que percebe que a família inteira as manterá vivas. “Tenho um filho que mora nos Estados Unidos e adora a rosquinha de pinga, sempre faço questão de preparar uma bacia quando ele vem para o Brasil. E, no fim, a família inteira aproveita, pois todo mundo ama”, afirma, orgulhosa.
A culinária é algo que sempre carrega um valor afetivo muito grande, fazendo parte da memória da maioria das pessoas. Dona Sônia carrega consigo lembranças de cozinha, afirmando ser uma das coisas que mais remetem à sua infância. “Lembro muito do bife da minha mãe. Eu falo e até sinto o gosto”, lembra com nostalgia. “Meus pais sempre foram bons na cozinha, mas esse bife que a minha mãe fazia era o melhor. A gente ia ao açougue todos os dias buscar a carne e já fazia. Era uma carne diferente. Eu lembro muito do sabor até hoje”, conta.
Sônia afirma que o bife da sua mãe é a receita que mais gostaria de preservar. “Gostaria muito de manter essa receita, mas nunca mais consegui fazer. Mesmo seguindo a receita direitinho, acho que a mão é diferente”, reflete. “Mais uma que eu preservo dela, também, é o frango com batata. Eu tento fazer igual, e essa geralmente dá certo, mas depende do dia”, afirma, sorrindo de forma saudosa.
Tanto Hélia quanto Sônia demonstram como a culinária é uma forma de manter viva a memória de pessoas que já se foram, preservando aquilo que elas faziam de melhor. Apesar de muitas vezes não conseguirem reproduzir fielmente as receitas, o carinho depositado pela lembrança de uma pessoa amada mantém viva a sua recordação e essência.
Nossas lembranças são passadas pelas pessoas que nos conheciam em vida, através das histórias que contam sobre nós.
— Viva: A Vida é uma Festa
Resgatar memórias vai muito além de relembrar o passado. Significa preservar a essência individual, manter a marca de histórias que merecem ser contadas e passadas adiante. Ninguém possui uma passagem neutra no mundo, e as lembranças são o que ficam. O educador e escritor brasileiro Rubem Alves descreve a memória como “lembrar é esquecer, esquecer é lembrar”, refletindo sobre a ideia de que a memória e o esquecimento não são propriamente opostos, mas processos complementares.
As memórias, de acordo com o autor, são fundamentais para que o indivíduo não caminhe perdido, sem rumo. Elas carregam a alma. A memória serve, acima de tudo, como uma forma de ressignificação e resgate. É uma maneira de manter presentes pessoas que já se foram, por exemplo. Ao invés de ignorar e esquecer, a melhor alternativa é celebrar a história de quem partiu, como ressalta Hélia, ao não deixar morrer as receitas de sua mãe e de suas avós, que já faleceram. Lembranças e memória são os principais pilares de conexão entre o presente e o passado, entre os aqui presentes e os que já partiram.
Ao pensar em memórias e em resgatá-las, fica nítido que o envelhecer é belo, pois significa que ali existiu vida — e não há nada mais bonito do que olhar para trás com um sorriso pelo que foi e orgulho do que é.